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Atum Risonho

Há uns tempos, enquanto vagueava descontraidamente por entre os corredores de um supermercado da minha vizinhança, dei de caras com uma marca de atum que desconhecia. Chama-se “Risonho”, e o aspecto gráfico da pequena latinha cativou-me de imediato. Sem olhar a custos, depositei cuidadosamente uma destas latas no meu cesto de compras. Chegado a casa, tirei-lhe umas fotografias que gostava de partilhar convosco.

Risonho1Risonho2

Ahhhhh… Atum Risonho… Isto não é uma lata de atum: é um repositório de nostalgia e de melancolia. Há qualquer coisa no design utilizado que nos leva de volta aos tempos antigos, onde a vida era mais inocente, simples, e feliz. A beleza poética de uma realidade que já não volta invade-nos, ao ponto da singular lágrima do saudosismo aparecer ao canto do olho… Esses é que eram os tempos… Atentai, atentai, ó gente de agora, ó arautos do pós-modernismo, atentai na expressão de felicidade do petiz. O pequenote que, após mais um sábado bem passado na companhia dos seus amigos lusitos da Mocidade Portuguesa, sai, na triunfante inocência da sua correria traquina, com a preciosa latinha de atum erguida bem alto: hoje já vai haver fartura sobre a mesa! Aliás, se a memória não me atraiçoa, nos dias da distribuição do atum, o hino da Mocidade era alterado, e acrescentava-se o ATUM ao tríptico “Deus, Pátria e Família”. Era qualquer coisa deste género:

Lá vamos, cantando e rindo
Levados, levados, sim
Pela voz do sabor tremendo
Do Atum, – paladar sem fim.

Lá vamos, que o atum é lindo!
Latas e latas comendo,
Lascas inteiras deglutindo!

Atum posta imortal,
Negra fome despedaça
Abunda nos mares de Portugal

Comer! Comer! E lá vamos!
Atum em óleo, oferece o que pescámos
À Mocidade que passa.

Ah, bons velhos tempos… Era uma época menos complicada. Uma altura em que, por causa da fome, da pobreza e do temor, uma latinha de atum era uma paga mais do que suficiente pelos favores sexuais dos jovens. Está certo que alguns choravam, na hora H, mas, depois do serviço terminado, quando lhes era entregue a valiosa lata, um sorriso voltava àquela delicada face imberbe, e lá iam, risonhos (lá está!)… Nada desta confusão de agora, com tribunais, juízes e jornalistas (o suposto “escândalo” Ballet Rose não passou de uma ficção idealizada por um cronista mais imaginativo).




mas fiquei sem perceber porque é que o atum se ri.


Cara Mipo, estou farto de pensar nisto e, até agora, a hipótese que me parece mais provável é esta. O próprio atum gosta da petizada! É por isso que sorri. É porque sabe que a sua carne vai trazer expressões de satisfação e agrado as faces daqueles que são, como já dizia o outro, o “melhor do mundo”. Afinal de contas, o facto de ser pescado, morto, escamado, desfeito em pedacinhos (como diz na embalagem) e enviado numa lata, não passa de um pequeno sacrifício que se faz em troca de um sorriso de criança.


Os bacalhaus é que deviam rir: têm caras (e línguas), no entanto a minha douta (como sempre) explicação é: o atum é risonho porque está mergulhado em óleo, logo escorrega melhor (nunca se sabe se há alguém com taras de latas de atum). Aproveito para perguntar se não acham aquele joelho na argolinha, esquisito demais.


fico, desde hoje, com uma nova admiração pelo atum, esse nobre e abnegado peixe. Tiro-lhe o meu chapéu.


Proximo capítulo: O Atum TENÓRIO!
Para além da lata a apelar à nostalgia, é simplesmente o melhor atum enlatado! – Só para apreciadores gourmet!


Mas isto é que foi uma descoberta! Um amigo da apanha dos enlatados. Pois, pois, dá gosto ler.

Cumprimentos da outra prateleira,

K.

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